segunda-feira, 20 de julho de 2009

Cuidado! Homem na pista

Airton Mendes (07/2009)

O Homem avança na pista
Olhar de pavor e mãos à cabeça
Tenta agarrar os carros
Que dele, em fuga, se desviam

Homens fantasiados de carros
Carros que engolem homens

Porque os carros fogem do Homem?
Os homens temem o Homem?
Os homens temem sujar a roupa?

Homens vestidos de carro
Carros com medo do Homem
Homens com medo do Homem
Homens vestidos de medo!

DUAS VEZES DRUMMOND

INOCENTES DO LEBLON

Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
Trouxe emigrantes?
Trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.


MUNDO GRANDE

...
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos-voltarão?
...

Carlos Drummond de Andrade (em "Sentimento do Mundo" - 1940)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O PLANTADOR

(em memória de Osvaldo Terra )
Airton Mendes (junho de 2009)


Que de terra foi tua vida
De terra, tuas palavras
De terra, teu sorriso
De terra, o teu nome

De terra sempre foram teus caminhos
De terra serão os caminhos de teus filhos
Que com você aprenderam a andar descalços

E por teres sido
Da terra, o plantador,
Da terra tão raiz,
À terra tanto amor,

Quis a Terra ter-te mais perto dela,
Talvez para que, feito adubo divino,
Fertilizasses o chão d
e onde deve nascer
O Homem Novo.

domingo, 31 de maio de 2009

CATADORES DE SONHOS

Airton Mendes (05/2009)
Recolher os restos
As sobras do progresso
Migalhas da grandeza
Não foram para baixo do tapete
Tanto incomodam agora
E sempre, e sempre

Roupas que outros corpos vestiram
Sapatos de outros pés
Cigarros de outras bocas
Governos de países distantes
Se mostram na parede
E sempre, e sempre

A vida vai passando
Vai o dia, vem a polícia
Vai a noite, vem a fome
Vão os carros, vem o frio
Amanhã tudo se repete
E sempre, e sempre

Os sonhos, todos eles,
Vão dentro da carroça
Que vazia está
Sempre.

Incidências

Airton Mendes (05/2009)


A poesia me prende à vida
Como ao dono está preso o cão
Como a morte prende o suicida
Como o amor prende o coração

A vida me mostra a liberdade
Como liberto deve ser o povo
Como a criança na tenra idade
Como necessário é o desejo do novo

A liberdade me mostra o caminho
Por onde devem passar meus companheiros
Pois sem eles o poeta está sozinho
E o caminho se perde por inteiro

Pois caminho só existe
Se o povo por ele caminha
E a trilha ao tempo resiste
E a poesia nunca estará sozinha

sábado, 4 de abril de 2009

ODE AO BURGUÊS

Mário de Andrade (em “Paulicéia Desvairada” – 1922 )

Eu insulto o burgês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suiça! Morte viva ao Adriano!
"_ Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
_ Um colar... _ Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Caminho

Airton Mendes (01/2009)
Voa, meu pensamento
E nas asas da poesia
Vá à procura do alimento
Que é teu sustento e tua guia

De que precisas, meu pensamento,
Para voar com essas asas?
-Para mostrar meu sentimento
Vou em busca das palavras

Te basta o verbo, a palavra nua
Para neste vôo liberto seguir adiante?
-Preciso de novos olhos para ver a rua
Onde passa a minha sina de caminhante

De algo mais ainda precisaria?
Amigos, amores, guarida, carinho?
-Tudo isto é o alimento da poesia
É o que vou colhendo no caminho

Querido pensamento, me diga ainda,
Onde vai dar tão longa caminhada?
Onde termina esta trilha tão linda?
Terá ela um ponto de chegada?

-Te respondo, com os olhos a brilhar,
Com o que colhi nos campos da vida,
A caminhada se faz ao caminhar,
E não há chegada, só partida.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Soneto à mulher amada

Airton Mendes (12/2008)
Amo-te mais a cada dia.
Que nunca finde o que sinto.
Nem seque a fonte que irradia
Tanta beleza e carinho infinito.

Penso às vezes estar delirando
E, nesta viagem insana.
Ver-te linda e impassível pairando
Por sobre a hipocrisia humana.

Porque assim és, amor meu:
Soberano e supremo ser
Que no dia certo se fez presente.

Agora és minha e sou teu.
Morto, me fizeste renascer
Nesta vida de poesia permanente.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

POEMA DE NATAL

Vinícius de Moraes
(em "Nova Antologia Poética")
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos-
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos-
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai-
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança do milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte-
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Opostos

Airton Mendes (12/2008)


Sempre é muito tempo
Sempre é tempo algum
Nunca é bastante tempo
Nunca é tempo nenhum

O NÃO é exato, absoluto
Nem sempre é assim
E se, numa esquina do tempo.
O não cruzar com o sim?

Nem sempre sei o que quero
Por vezes é difícil saber
Sempre sei o que não quero
É mais fácil não querer?

Opostos estão a nos seguir
Opostos nos ajudam a viver
Opostos nos fazem sentir
Que para ter é preciso perder

Nunca e sempre,
Não e sim,
Opostos estão entre,
Opostos se unem no fim

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Cantiga para não morrer

Ferreira Gullar
( em "Dentro da noite veloz")
Quando você for se embora
moça branca como a neve
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
menina de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

sábado, 11 de outubro de 2008

Hay que hacer una revolución

(Para Wagner Lino)
Airton Mendes (10/2008)

Na noite falsamente calma,
Na solidão de minh’alma,
Percebo esta contradição.

No dia a dia modorrento,
No abstrato cheirando a cimento,
Vou sofrendo a transformação.

Mudar de casa, mudar de vida,
Trocar as roupas, a paixão, a comida,
Alterar o rumo, a meta, a direção.

Não aceitar regras, dogmas, nada de absoluto,
Questionar o mundo, Deus, tudo,
E, na negação, enxergar a verdadeira missão.

Forjar com lágrimas e suor uma nova realidade,
Do sol: a claridade, das palavras: a verdade,
O correto sempre, com precisão.

Nada de novo sem lastro,
Nada de caminho sem rastro,
Nada de perdão sem lição.

No horizonte um novo caminho,
Construído com lágrima e carinho,
Com indivíduo e multidão.

Muito há que se fazer.
Muito há que se aprender.
Porque Revolução é contradição,

É transformação e direção,
É missão e precisão,
É lição e multidão.

Poesia, pois é, pois fomos à bienal


domingo, 22 de junho de 2008

Amigo

Airton Mendes (06/2008)

O amigo é a solução:
Para a solidão do baile
Para dizer o que penso
Para quem só lê em Braile
Para emprestar o lenço
Para recordar os velhos tempos
Para ouvir os discos antigos
Para lembrar que ainda é cedo
Para fazer novos amigos
Para dividir a cerveja no bar
Para lamentar a paixão perdida
Para entrar no jogo sem pagar
Para a conta dividida
Para tantos problemas
Certos ou errados
Com ou sem razão
Pouco importa o vetor, o sentido, a direção
O amigo é sempre a solução
Para qualquer equação

quinta-feira, 5 de junho de 2008

POÉTICA ( Manuel Bandeira )

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras, sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções, sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos, sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Poilítico
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber de lirismo que não é libertação