Camaradas,
Depois de longo e tenebroso in(f)verno intelectual, no qual pastavam juntos o cavalo descontente e a vaca carente, tentarei de nuevo mostrar mais alguma coisa procês. Nem sei se conseguirei, pois com essa porra toda acontecendo, a inspiração acaba indo para o beleléu. Vou usar esse blog, também como diário, ou semanário, ou mensário, ou o caralho, tentando, além de escrever um pouco de poesia, mostrar a merda em que se encontra minha cabeça, ou não se encontra, perdeu-se de vez...sei lá, vamos seguindo...
"Todo escritor acredita na valia do que escreve. Se mostra, é por vaidade. Se não mostra, é por vaidade também." Mário de Andrade
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
Cena de buteco
O axé se arrasta
irritantemente
letra infinda
melodia única
Um casal para, olha
mesa na calçada
- cerveja e maria-mole
corte
dezenas de policiais cercam
um grupo de professores
na grande avenida
um grito:
porra zé, desliga essa merda
e aumenta o som do axé
... e a paz volta a reinar no buteco
Algo
Nada além de massa,
algo de ato e pouco de coisa
a ouvir, provar, enxergar
definir o que, pelos sentidos
apresenta-se
Bicho movido a sons
tento mostrar-me ao mundo, que não
em nenhuma atmosfera, me faz respirar:
Sufoco, engasgo, ato, retrato...
muito se faz, tudo e
nada
perdição, caminho, atalho, estrada
desejo de andança, cama, descanso
atraso e descaso
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
Cidade Solidão 2
Liège, 09/2015
Esta cidade tem muito disto:
Solidão de quintais e ventos
Desencontro de sorrisos e gestos
Línguas e pensamentos
...
A nudez da poesia tem o dom de ferir o verbo
Abraçar o errado e desafiar o certo
Mas, ainda assim, o poeta está só
E o gosto salino impregna o seu poema
Molha sua boca e derrete a tinta das palavras.
terça-feira, 10 de março de 2015
Visões da calçada
Esperar, esperar
Brisa de gente, cheiro de pão
Homens a cavar intermináveis subterrâneos
(Túneis de nenhum lugar)
Semáforos direcionando o fluxo do monóxido
Gente com pressa, gente desconexa
E a roda do mundo a girar
Devagar,
Cada dia mais
Devagar
sábado, 15 de novembro de 2014
Um Blues, um vinho
09/2019
O momento é de poesia
E o poema pede nostalgia
Pede uma dose de lirismo
Pede infortúnio, pede carinho
Pede um blues e um vinho
Um blues para curar
Essa ressaca de amor
Um vinho para serenar
Essa sede de paixão
Essa falta de calor
Esse frio de solidão
Essa trava na garganta
Essa procura, tanta
Insana
Feroz
Por favor!
Um blues no ouvido
Um vinho no sentido
...
Às vezes um blues
Às vezes um vinho
Às vezes os dois.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Meia-vida
09/2014
Uma vida inteira
Terrena sem terreno
Retirante, mutante, causticante
Uma vida inteira
Sem eira nem beira
Arrabalde, herdade
Incapaz cidade
Uma vida inteira
Olhando e esperando
Cansado, atado, plantado,
Fracassado
E a vida inteira
Passando, parada, passada,
Escorrendo, escarrada
Encardida
Uma inteira meia-vida
fodida
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Rabiscos
(para Gabriel)
Letra por letra,
penso formas, crio palavras,
(encontro aquela parte perdida do quebra-cabeças).
Vou mostrando no papel, sentimentos
alegrias e tormentos.
Nos rabiscos bêbados,
na dificuldade do aconchego,
vejo, ouço, escrevo o que sinto
de flor, de amor,
de ternura e infinito
de água e fogo
de concreto e abstrato
sorte e jogo
sonho e ato
e quase sempre
o que tenho de fogo
é o que tenho de sonho
e sonho é lugar
é vida e é vida
é tentar
e tentar.
tentar até não haver mais tentativa
insistir até que se finde toda insistência
viver para subverter a palavra viva
até a ciência tornar-se deus
até deus tornar-se ciência.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
No fim, assim
Airton Mendes
(11/2013)
a vida que me dei
se não a que pensei
também não foi a que tentei
tentei ser homem
e acabei menino
tentei ser igual
e acabei plural
tentei ser rico
e acabei companheiro
tentei ser alegre
e acabei sem dinheiro
tentei ser errante
e acabei cidadão
tentei ser amante
e me enredei na paixão
tentei ser pai
e acabei amigo
tentei ser solitário
e morrerei contigo
sábado, 25 de maio de 2013
buteco do Almir
Airton Mendes (04/2013)
a hora,
se existe
fica do lado de fora
aqui, mecânicos, professores,
drogados, aposentados,
poetas e policiais
estão irmanados pelo bairro,
pela infância
e pela constância
e o Almir tem sempre
a melhor cerveja...
quinta-feira, 23 de maio de 2013
porvir
Airton Mendes 05/2013
cacos,
prelúdio
e prenúncio.
de cacos,
a vida
(caquética)
:prelúdio de agonia
-prenúncio
de que
brada
sinfonia?
domingo, 13 de janeiro de 2013
A necessária solidão
Airton Mendes (03/2012)
O prazer de
levar o barco
de volta
para casa
de
contemplar a tarde morna
de sentir os
pés molhados
de conversar
com os peixes
O caminho
pela praia é longo
tanto melhor
o tempo é meu
amigo
o tempo e a
solidão
casal de
amigos
sempre
presente
A lua
mergulhou no mar
e o único
sinal da minha pegada
é um reflexo
prateado
que dura até
o próximo passo
Próximo ao
cais um navio ancorado
é um grande
cargueiro
terá trazido
alimentos?
roupas?
máquinas? bugigangas?
Não importa
ele não é
maior que meu barco
nem seu
trajeto
é mais longo
que o meu
e nem a sua
sina
dor e prazer
Airton Mendes (08/2012)
Esta vida
supostamente minha
às vezes me traz
indagações
que preferia
ficassem trancadas
no sótão
ou no porão
da guarida da
existência
Uma delas -que
admito-
gostaria manter
presa
é o contraponto
dor e prazer:
Qual o porquê
de levar ao extremo
do suportável
(da dor ignara
e do prazer ignavo)
este corpo que
creio meu?
E se sendo
tornam-se justos
os novos prazeres
e as velhas
satisfações?
E não sendo:
em que recôndito
baú do caráter
estará trancada
A consciência?
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Hilda Hilst
Prazer diverso tenho ao ler a poesia de Hilda Hilst. "Limpa e direta", de outra, lírica e de uma profundidade singular. Foi paixão fulminante e arrebatadora.
Aqui, um pequeno trecho de "Heróicas" (Ode Fragmentária, 1961)
...
Ah, deidades,
O vosso riso inflama
Ainda mais
O passo de quem ama.
De coração ardente
Eis-nos aqui.
Não haverá magia
Nem vertente
Nem secreto conluio
Nem labareda clara
Ostentando uma rosa
Que não a preclara,
Que cegue o entendimento
Ou que vacile o andar.
Somos a um mesmo tempo
Rio e mar.
Na laringe e no peito
Renasce cada dia
Um estigma de luz
Um signo perfeito
E nada nos escurece a mente ou nos seduz.
...
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
VICENTE HUIDOBRO
ARTE POÉTICA
Tradução de Anderson Braga Horta
Tradução de Anderson Braga Horta
Que o
verso seja como uma chave
Que abra mil portas.
Uma folha cai; algo passa voando;
Quanto fitem os olhos criado seja,
E a alma de quem ouve fique tremendo.
Inventa mundos novos e cultiva a palavra;
O adjetivo, quando não dá vida, mata.
Estamos no ciclo dos nervos.
O músculo pende,
Como lembrança, nos museus;
Mas nem por isso temos menos força:
O vigor verdadeiro
Reside na cabeça.
Por que cantais a rosa, ó Poetas!
Fazei-a florescer no poema.
Somente para nós
Vivem as coisas sob o sol.
O Poeta é um pequeno deus.
Que abra mil portas.
Uma folha cai; algo passa voando;
Quanto fitem os olhos criado seja,
E a alma de quem ouve fique tremendo.
Inventa mundos novos e cultiva a palavra;
O adjetivo, quando não dá vida, mata.
Estamos no ciclo dos nervos.
O músculo pende,
Como lembrança, nos museus;
Mas nem por isso temos menos força:
O vigor verdadeiro
Reside na cabeça.
Por que cantais a rosa, ó Poetas!
Fazei-a florescer no poema.
Somente para nós
Vivem as coisas sob o sol.
O Poeta é um pequeno deus.
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