sábado, 4 de abril de 2009

ODE AO BURGUÊS

Mário de Andrade (em “Paulicéia Desvairada” – 1922 )

Eu insulto o burgês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suiça! Morte viva ao Adriano!
"_ Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
_ Um colar... _ Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Caminho

Airton Mendes (01/2009)
Voa, meu pensamento
E nas asas da poesia
Vá à procura do alimento
Que é teu sustento e tua guia

De que precisas, meu pensamento,
Para voar com essas asas?
-Para mostrar meu sentimento
Vou em busca das palavras

Te basta o verbo, a palavra nua
Para neste vôo liberto seguir adiante?
-Preciso de novos olhos para ver a rua
Onde passa a minha sina de caminhante

De algo mais ainda precisaria?
Amigos, amores, guarida, carinho?
-Tudo isto é o alimento da poesia
É o que vou colhendo no caminho

Querido pensamento, me diga ainda,
Onde vai dar tão longa caminhada?
Onde termina esta trilha tão linda?
Terá ela um ponto de chegada?

-Te respondo, com os olhos a brilhar,
Com o que colhi nos campos da vida,
A caminhada se faz ao caminhar,
E não há chegada, só partida.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Soneto à mulher amada

Airton Mendes (12/2008)
Amo-te mais a cada dia.
Que nunca finde o que sinto.
Nem seque a fonte que irradia
Tanta beleza e carinho infinito.

Penso às vezes estar delirando
E, nesta viagem insana.
Ver-te linda e impassível pairando
Por sobre a hipocrisia humana.

Porque assim és, amor meu:
Soberano e supremo ser
Que no dia certo se fez presente.

Agora és minha e sou teu.
Morto, me fizeste renascer
Nesta vida de poesia permanente.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

POEMA DE NATAL

Vinícius de Moraes
(em "Nova Antologia Poética")
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos-
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos-
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai-
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança do milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte-
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Opostos

Airton Mendes (12/2008)


Sempre é muito tempo
Sempre é tempo algum
Nunca é bastante tempo
Nunca é tempo nenhum

O NÃO é exato, absoluto
Nem sempre é assim
E se, numa esquina do tempo.
O não cruzar com o sim?

Nem sempre sei o que quero
Por vezes é difícil saber
Sempre sei o que não quero
É mais fácil não querer?

Opostos estão a nos seguir
Opostos nos ajudam a viver
Opostos nos fazem sentir
Que para ter é preciso perder

Nunca e sempre,
Não e sim,
Opostos estão entre,
Opostos se unem no fim

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Cantiga para não morrer

Ferreira Gullar
( em "Dentro da noite veloz")
Quando você for se embora
moça branca como a neve
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
menina de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

sábado, 11 de outubro de 2008

Hay que hacer una revolución

(Para Wagner Lino)
Airton Mendes (10/2008)

Na noite falsamente calma,
Na solidão de minh’alma,
Percebo esta contradição.

No dia a dia modorrento,
No abstrato cheirando a cimento,
Vou sofrendo a transformação.

Mudar de casa, mudar de vida,
Trocar as roupas, a paixão, a comida,
Alterar o rumo, a meta, a direção.

Não aceitar regras, dogmas, nada de absoluto,
Questionar o mundo, Deus, tudo,
E, na negação, enxergar a verdadeira missão.

Forjar com lágrimas e suor uma nova realidade,
Do sol: a claridade, das palavras: a verdade,
O correto sempre, com precisão.

Nada de novo sem lastro,
Nada de caminho sem rastro,
Nada de perdão sem lição.

No horizonte um novo caminho,
Construído com lágrima e carinho,
Com indivíduo e multidão.

Muito há que se fazer.
Muito há que se aprender.
Porque Revolução é contradição,

É transformação e direção,
É missão e precisão,
É lição e multidão.

Poesia, pois é, pois fomos à bienal


domingo, 22 de junho de 2008

Amigo

Airton Mendes (06/2008)

O amigo é a solução:
Para a solidão do baile
Para dizer o que penso
Para quem só lê em Braile
Para emprestar o lenço
Para recordar os velhos tempos
Para ouvir os discos antigos
Para lembrar que ainda é cedo
Para fazer novos amigos
Para dividir a cerveja no bar
Para lamentar a paixão perdida
Para entrar no jogo sem pagar
Para a conta dividida
Para tantos problemas
Certos ou errados
Com ou sem razão
Pouco importa o vetor, o sentido, a direção
O amigo é sempre a solução
Para qualquer equação

quinta-feira, 5 de junho de 2008

POÉTICA ( Manuel Bandeira )

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras, sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções, sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos, sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Poilítico
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber de lirismo que não é libertação

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Lua

Airton Mendes (05/2008)


Teu brilho ilumina meu caminho
Em tuas marés, meu ser flutua
Meu alimento é o teu carinho
Minha força, minha guia, minha lua

Fonte da minha inspiração
Boquiaberto a te admirar
Penso, quão felizes são
Aqueles que te sabem amar

Perdoa estas parcas rimas
Minha poesia meio sem jeito

Saiba que de tudo estás acima

E sempre estarás em meu peito

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Lado B

Airton Mendes
Na segunda metade da minha vida
Sinto as coisas voltarem
Ao ponto de partida
Ressurge em meu coração
A paixão que pensei perdida

O amor novamente
A pulsar nas veias
A alegria criança está de volta
Limpar a casa, varrer as teias
Peito aberto,
O coração preso, se solta

Na segunda metade da minha vida
Quero viver meu filho
Agora companheiro
Amigo e conselheiro
Consultor e professor


O lado b do disco
Torna-se o mais bonito
O plano definindo a direção
A calma no lugar do risco
A razão amiga da emoção

Na segunda metade da minha vida

Quero continuar a ser moleque
E acreditar que nada finda
Mesmo sabendo onde vou chegar
Quero levar a alegria da partida

domingo, 13 de abril de 2008

Minha Menina

Airton Mendes
(05/2006)
Minha menina
Me espere na esquina
Não cruze a avenida
Não olhe a vitrina

Espere, minha linda
Tua espera já finda
A vida dá certo
Se estamos mais perto

To chegando querida
Chegando da lida
Que lida com a gente
Com o corpo e a mente

Nos torna servis
Passivos, zumbis
Sem tempo pra paixão
Sem dinheiro pro pão

Mas calma, minha pequena
A vida sempre vale a pena
Temos tantos amigos
A nos mostrar os perigos

Temos pouco dinheiro
Agora em janeiro
Mas as coisas melhoram
Ao chegar fevereiro

Nossa vida é assim:
Eu pra você, você pra mim
Assim no começo
No meio e no fim

E assim vamos indo, a vida levando
Vivendo, cantando, sorrindo, amando
E aquilo que nos separava
No fim acaba nos juntando

O trabalho

Airton Mendes
(11/2007)
O trabalho enobrece o homem!
O trabalho empobrece o homem
O trabalho emagrece o homem
O trabalho entristece o homem

O trabalho engrandece o homem!
O trabalho envelhece o homem
O trabalho enrijece o homem
O trabalho enfurece o homem

O trabalho dignifica o homem!
O trabalho danifica o homem
O trabalho crucifica o homem
O trabalho petrifica o homem

O trabalho realiza o homem!
O trabalho inferniza o homem
O trabalho agoniza o homem
O trabalho martiriza o homem

O trabalho valoriza o homem!
O trabalho amortiza o homem
O trabalho cadaveriza o homem
O trabalho estatiza o homem

O trabalho, trabalho, trabalho
Trabalho, trabalho, trabalho

Porto

Airton Mendes
( Paraty, 26/12/2007)
No porto em que meu coração aporta
A saudade do porto anterior aperta
Mas a visão de novos mares aborta
O nascer da melancolia certa

No porto em que meu coração aporta
Novos amores me estão à espera
E o romantismo que do meu peito brota
Desembarca, se solta, se esmera

Eu, novato, humilde marinheiro
A navegar sem rumo nos mares da poesia
Encontrando em cada porto, um estaleiro
Com o barco para a travessia

Com ele me preparo para enfrentar
As tempestades e calmarias do caminho
Naquelas com os amigos posso contar
Nestas tenho que me virar sozinho

As tempestades não respeitam embarcação
Eu não as provoco, elas sempre existiram
Irrompem na vida, explodem no coração,
Corroem a alma, desonram os que fugiram

A calmaria, não se engane, é a solidão
Um bicho malvado, machuca por dentro
Às vezes se faz presente, às vezes não
Faz de seu peito sua morada, seu antro

E assim, neste navegar sem fim
Os mares do dia a dia vou singrar
Se o teu barco precisar de mim
O novato lá estará para ajudar