"Todo escritor acredita na valia do que escreve. Se mostra, é por vaidade. Se não mostra, é por vaidade também." Mário de Andrade
domingo, 13 de janeiro de 2013
dor e prazer
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Hilda Hilst
Prazer diverso tenho ao ler a poesia de Hilda Hilst. "Limpa e direta", de outra, lírica e de uma profundidade singular. Foi paixão fulminante e arrebatadora.
Aqui, um pequeno trecho de "Heróicas" (Ode Fragmentária, 1961)
...
Ah, deidades,
O vosso riso inflama
Ainda mais
O passo de quem ama.
De coração ardente
Eis-nos aqui.
Não haverá magia
Nem vertente
Nem secreto conluio
Nem labareda clara
Ostentando uma rosa
Que não a preclara,
Que cegue o entendimento
Ou que vacile o andar.
Somos a um mesmo tempo
Rio e mar.
Na laringe e no peito
Renasce cada dia
Um estigma de luz
Um signo perfeito
E nada nos escurece a mente ou nos seduz.
...
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Tradução de Anderson Braga Horta
Que abra mil portas.
Uma folha cai; algo passa voando;
Quanto fitem os olhos criado seja,
E a alma de quem ouve fique tremendo.
Inventa mundos novos e cultiva a palavra;
O adjetivo, quando não dá vida, mata.
Estamos no ciclo dos nervos.
O músculo pende,
Como lembrança, nos museus;
Mas nem por isso temos menos força:
O vigor verdadeiro
Reside na cabeça.
Por que cantais a rosa, ó Poetas!
Fazei-a florescer no poema.
Somente para nós
Vivem as coisas sob o sol.
O Poeta é um pequeno deus.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Luizão e Gimenez
quinta-feira, 24 de maio de 2012
tanto
atitudes não tomadas
(e todos os olhares desviados)
sexta-feira, 23 de março de 2012
A canção
domingo, 18 de março de 2012
SER E ESTAR
A nuvem, a asa, o vento,
a árvore, a pedra, o morto...
tudo o que está em movimento,
tudo o que está absorto...
aparente é esse alento
de vela rumando um porto
como aparente é o jazimento
de quem na terra achou conforto...
pois tudo o que é está imerso
neste respirar do universo
-ora mais brando ora mais forte
porém sem pausa definida-
e curto é o prazo da vida...
e curto é o prazo da morte.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Amigo virtual
que não é meu amigo
mas é como se fosse.
Ele mora na Califórnia
(e eu nunca fui à Califórnia).
É um amigo virtual
mas que existe.
Ah, maravilhas do computador!
Um amigo de teclado
alguém que nunca vi
nunca troquei palavra
mas se mantém ligado a mim
pela poesia
Acho que gostaria de conhecê-lo
(ou não)
será que ele gosta do que escrevo?
será que só lê
para passar o tempo?
(tem tanta coisa no pc...)
Todo dia procuro
pelo meu amigo da Califórnia
quero ver se ele leu
o que escrevi
talvez nem leia
só me conecte por brincadeira
distração
sei lá...
Pois é, Chaplin, são tempos modernos!
são amigos que não vejo
são pessoas que não conheço
são contatos que desejo
daquele clic que não esqueço
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
hiato
uma fenda
hiato não preenchido
no poema
Entre a paixão cantada
e o amor construido
entre a vida sonhada
e a rotina prevista
entre a jura de sangue
e o amigo ausente
Entre o necessário
e o real
entre a poesia
e o aço
entre a ilusão
e o espaço
entre a mão
e o papel
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
considerações à "cerca" da vida
vivo a vida
como ela vive em mim
e assim é
como que
uma existência à parte
minha vida
(que não é minha)
reside em mim
faz uso deste corpo
mas as palavras são dela
as ações são dela
o que é meu, afinal?
nada
pois o corpo, a matéria
também não me pertence
talvez pertença ao mundo
talvez a um amor
ou a um assassino
bala perdida
doença esquecida
e viver uma vida
que não é minha
não é fácil
exige cuidado, exige mestria
exige entender
o que quer a vida
viver
assim, comigo nela
e ela em mim
vou tentando traduzir
os seus sinais
mostrando seus sorrisos
e seus ais
e na função de ator
traduzir com o corpo
o que ela tem de melhor
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Perplexidades
Ferreira Gullar
a parte mais efêmera
de mim
é esta consciência de que existo
e todo o existir consiste nisto
é estranho!
e mais estranho
ainda
me é sabê-lo
e saber
que esta consciência dura menos
que um fio do meu cabelo
e mais estranho ainda
que sabê-lo
é que
enquanto dura me é dado
o infinito universo constelado
de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las
fulgindo no presente do passado
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
A dor de sofrer
Airton Mendes (/11/2011)
A dor do sofrimento
- Onde dói?
No coração?
No peito?
No que não foi?
No que está feito?
No amor não esquecido?
No dinheiro perdido?
- Onde dói a dor
Do sofrimento sofrido?
- O que é a dor?
É a pessoa que partiu?
É a tua casa que ruiu?
É perder o companheiro querido?
É lavar um membro ferido?
É não ter ninguém a teu lado?
É sentir um osso quebrado?
É a paixão que não tem cura?
É a ferida que não supura?
Onde dói a dor do amor?
E, pior (se assim for)
Onde dói a dor
De quem não sente o amor?
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
O sol da cidade
A cidade está desperta
E, rosto sob a coberta
Aproveitas o último segundo
Do sonho que será esquecido
No instante advindo
É quando terás que enfrentar
O sol a iluminar
O teu rosto rugado
O teu corpo cansado
Os teus pés disfarçados
Disfarce de bailarina
Que o sol, impassível, ilumina
Deixando porém entrever
Para poucos olhos
O retrato do vilão sob a menina
Edifício São Vito
09/2011
Depois de meio século
O estorvo de 27 andares foi ao chão
Liberaram um pedaço de céu
Um facho de sol
Um ponto de vista
Muitos pontos de fuga
Enterraram o feio prédio
E espalharam sua gente feia
A poeira subiu
E com ela as histórias
A poeira dissipou-se
As histórias ainda estão no ar
Talvez até a próxima construção
Talvez para sempre
cidade natural
(07/2011)
Está lá e é você
Você, rotulado, numerado,
arquivado, identificado...
Você, o numero 13.110.307
Também conhecido como
Airton Gonçalves Mendes
Natural de Santo André
Naturalmente vieste ao mundo nesta cidade
Naturalmente fazes parte dela
Juntamente com tudo
Que a cidade naturalmente tem
É natural da cidade
O barulho, o medo, o odor e o terror
O mendigo, a favela, o dever e o poder
Sua mãe, seu pai, seu tio e o rio
O rio que nascia na rua ao lado
Hoje está entubado,
Sem respirar, sob o asfalto
Da natural avenida
E tudo é natural nesta cidade
Como a morte
Naturalmente morreram seu pai e seu tio
Naturalmente morrerá você
Como naturalmente morreu o rio
Naturalmente também morrerá esta cidade
Um dia...
