segunda-feira, 25 de julho de 2011

Cidade fantasma

Airton Mendes (07/2011)

Da infância, lembro-me de Santa cruz
e do seu lamacento Rio Pardo

Das suas águas frias
Do medo de pular da ponte
Das frutas na porta da vendinha
Do cinema sempre fechado

Na praça, imponente,
o Clube dos Vinte
determinava quem e quantos
ali mandavam

Ainda guardo a velha fotografia
Os irmãos abraçados
a igreja envidraçada
o sorriso clicado

Existiam as garotas, tantas e lindas
(e menino de cidade grande lá fazia sucesso)

Existia o sorvete
Existia o sítio
Existia o cavalo
Existia a funerária

E existia Maria
minha querida avó
minha avó cigana
minha “vó” Maria

Da casinha aconchegante
Das comidas deliciosas
Do sorriso
Do carinho

Maria, nossa cúmplice
escondia nossas artes
Competia com mamãe
Quem era mais mãe?

Nem avó nem mãe
Maria era a cidade
Santa cruz morreu com ela...

cidadão

Airton Mendes (02/2011)

O mundo é do tamanho
Da minha retina

Os sabores são aqueles
Que minha boca provou

As notícias são as que leio
Com os olhos da televisão

Faço o que é permitido
E o que é devido

O mundo é bom
Deus é bom

Mas pago meu dízimo
Ao Diabo

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

espelho

Airton Mendes
(01/2010)

Tem fome de vida
A vida que passa fome?

Que sede de justiça
Tem a garganta que está seca?

Belas frases,
Grandes palavras de ordem,
Motes de intermináveis discussões
Teses, teorias, filosofias

Vocês, nuas,
Diante do espelho
Da realidade,
Que reflexo terão?

domingo, 26 de setembro de 2010

Amigo da vida

Airton Mendes
(09/2010)
Eu, quieto em meu canto
E vem a vida me chamar
Falar-me de novos encantos
Novas pessoas para amar

Eu, em meu canto sossegado
E novamente a vida me aporta
Pede-me para olhar ao lado
(tanta gente a vida não suporta)

Difícil viver a vida
Ao lado de tanta gente morta
Melhor bancar o suicida?
Melhor não abrir a porta?

Ser vivo é da vida ser amigo
Ser amigo é da vida ser parceiro
Ser parceiro é na vida ver sentido
O sentido é a vida por inteiro

domingo, 25 de julho de 2010

Imagens

Airton Mendes (07/2010)

São momentos, lembranças
Imagens que vem e vão
Como se estivesse folheando
Um velho álbum da memória

Eu, criança, ao deitar-me:
- Benção madrinha
- Durma com Deus
A escuridão do quarto era quebrada
Pela pequena lamparina
Flutuando no óleo sobre a água do copo
Aos pés da Virgem Maria

Tempos depois
A lamparina foi trocada
Pela imagem da Virgem
Dentro do que parecia ser
Uma pequena televisão
Madrinha agora simplesmente
Acionava o interruptor
Uma luzinha vermelha
Ao fundo a inscrição:
“Lembrança de Aparecida”

Cresci
A cama ficou pequena
A luzinha vermelha apagou-se
O quarto foi invadido pelo clarão
Da novela assistida na sala

E eu deixei de acreditar nos santos

domingo, 20 de junho de 2010

Da função do pintor

Airton Mendes 06/2010





Certa feita perguntaram-me
- O que é fazer poesia? Ora,
para este eterno poeta amador,
mote melhor não existiria:

Fazer poesia é pintar
A vida com palavras



São por vezes pinturas alegres
Outras românticas, tristes, iradas,
Cômicas, alucinadas...
Algumas francamente ruins,
Boas mesmo para o lixo.

Uma por sobre a outra,
Vai o poeta executando novas pinturas,
Mesmo sabendo que este seu afã
Será em vão
Que por mais pinturas que faça
Jamais encontrará a que procura

Esta é a utópica
Razão e função do poeta-pintor:
Achar a pintura ideal
Para a tela da vida.

Eu, de novo

Airton Mendes 20/06/2010
Depois de período de trevas, choro e ranger de dentes,
Eis-me aqui de novo,
Agora sem medo de Ali Babá e os quarenta ladrões.
Volto para fazer poesia...
Para tentar e tentar e tentar...
Tentar achar luz na escuridão
Tentar secar as lágrimas com alegria
Tentar só mostrar os dentes num sorriso
...
Estou sempre tentando...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Divagações Etílicas



Airton Mendes (12/2009)

Prazer e rotina

Os verdadeiros prazeres
Tão delicadamente puros são
Que por vezes parecem inexistir
Em meio ao turbilhão de sensações
Aos quais diariamente amarra-nos
A rotina.

...............


Sentimentos canibais

A cada bocada
Vem uma mastigada
E da bocada dada
Quase nunca sobra nada

.................


Utópico

Quisera não ter minha poesia
Traduzida em simples poema
Ressequida, prensada,
Reduzida, condensada
Na bi dimensionalidade
Do papel

..............

Delivery da crise

Demoraram 50 anos
Para entregar
2 trilhões de dólares
Para os pobres.
Em menos de 1 ano
Entregaram
18 trilhões de dólares
Para os ricos


sábado, 28 de novembro de 2009

Dois pequenos tesouros de Manuel Bandeira

O IMPOSSÍVEL CARINHO

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
-Eu soubesse repor-
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!


O ÚLTIMO POEMA

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intensionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação

sábado, 21 de novembro de 2009

Cinquenta Anos

Para “seu” Amaro e “dona” Graça em
homenagem às suas bodas de ouro

Airton Mendes (11/2009)


Como medir o amor?
Como definir o companheiro?
Senão pelo suor derramado
Senão pelo tempo passado
Na luta diária no mesmo trabalho
A união expressa na comunhão
Dos calos formados nas mãos

Existe maneira mais concreta
De se quantificar o amor?
Senão pela forma correta
Da medida do suor?
Senão pelo tempo passado
Alegrias e tristezas lado a lado?

Que são cinqüenta anos?
Um grão de areia na medida do mundo
Mas, quantas histórias, quantas lembranças,
Quantas pessoas, quantas andanças
E isso é vida!É a certeza de se ter
Tanto caminho percorrido
E tanto mais a percorrer.

A hora é esta!
Um momento tão raro
Pede alegria, pede festa
Pede vivas a “seu” Amaro
E outros tantos vivas à “dona” Graça
Pois da vida, este é o sentido:
Quando um ser ao outro abraça,
Quando tudo é dividido.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Um pouquinho

Airton Mendes
(10/2009)

Toda poesia deixa um pouquinho
Na vida da gente
Seja um sentimento de carinho
(esse, só quem é poeta sente)
Seja talvez uma desilusão
Por achar que no poema, agora,
Estaria em palavras a solução
Para o que não foi dito naquela hora

De toda poesia
Alguma coisa fica
Seja na ira contida
Seja na calma explícita
Seja no calor da paixão
Seja no agravo do coração
Seja na rotina do dia
Seja no sonho das armas
Seja no abraço amigo
Seja no ódio incutido...

Sim, toda poesia deixa alguma coisa...

Pena eu, naquele momento,
Ter esquecido a bela poesia
Que tão bem traduzia
Todo meu sentimento...

domingo, 4 de outubro de 2009

Metade


Airton Mendes (09/2009)

(Paixões, tantas
Amores...quantos?)

Bom é estar apaixonado!
Paixões nos renovam, nos motivam
Novas paixões nos mostram
Novos caminhos
Grandes paixões significam
Grandes mudanças

Amor é complicado
Exige respeito
Exige partilha
Exige estar ao lado
Mas, quem é que não quer
Amar e ser amado?

Paixões passam
Amores ficam
Paixões são ondas
Amores são rochas
Paixões vão
Amores são

Vida é paixão
Vida é amor
Metade paixão
Metade amor
Metade caminho
Metade Respeito
Metade mudança
Metade partilha
Metade razão
Metade coração

E, no final das contas,
Percebe-se:
De qualquer metade
Se faz o TODO!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Cuidado! Homem na pista

Airton Mendes (07/2009)

O Homem avança na pista
Olhar de pavor e mãos à cabeça
Tenta agarrar os carros
Que dele, em fuga, se desviam

Homens fantasiados de carros
Carros que engolem homens

Porque os carros fogem do Homem?
Os homens temem o Homem?
Os homens temem sujar a roupa?

Homens vestidos de carro
Carros com medo do Homem
Homens com medo do Homem
Homens vestidos de medo!

DUAS VEZES DRUMMOND

INOCENTES DO LEBLON

Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
Trouxe emigrantes?
Trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.


MUNDO GRANDE

...
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos-voltarão?
...

Carlos Drummond de Andrade (em "Sentimento do Mundo" - 1940)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O PLANTADOR

(em memória de Osvaldo Terra )
Airton Mendes (junho de 2009)


Que de terra foi tua vida
De terra, tuas palavras
De terra, teu sorriso
De terra, o teu nome

De terra sempre foram teus caminhos
De terra serão os caminhos de teus filhos
Que com você aprenderam a andar descalços

E por teres sido
Da terra, o plantador,
Da terra tão raiz,
À terra tanto amor,

Quis a Terra ter-te mais perto dela,
Talvez para que, feito adubo divino,
Fertilizasses o chão d
e onde deve nascer
O Homem Novo.