segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

hiato

Airton Mendes (02/2012)
Há sempre uma lacuna
uma fenda
hiato não preenchido
no poema

Entre a paixão cantada
e o amor construido
entre a vida sonhada
e a rotina prevista
entre a jura de sangue
e o amigo ausente

Entre o necessário
e o real
entre a poesia
e o aço
entre a ilusão
e o espaço
entre a mão
e o papel

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

considerações à "cerca" da vida

Airton Mendes (01/2012)

vivo a vida
como ela vive em mim
e assim é
como que
uma existência à parte
minha vida
(que não é minha)
reside em mim
faz uso deste corpo
mas as palavras são dela
as ações são dela

o que é meu, afinal?
nada
pois o corpo, a matéria
também não me pertence
talvez pertença ao mundo
talvez a um amor
ou a um assassino
bala perdida
doença esquecida

e viver uma vida
que não é minha
não é fácil
exige cuidado, exige mestria
exige entender
o que quer a vida
viver

assim, comigo nela
e ela em mim
vou tentando traduzir
os seus sinais
mostrando seus sorrisos
e seus ais
e na função de ator
traduzir com o corpo
o que ela tem de melhor

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Perplexidades


Ferreira Gullar




a parte mais efêmera
de mim
é esta consciência de que existo

e todo o existir consiste nisto

é estranho!
e mais estranho
ainda
me é sabê-lo
e saber
que esta consciência dura menos
que um fio do meu cabelo

e mais estranho ainda
que sabê-lo
é que
enquanto dura me é dado
o infinito universo constelado
de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las
fulgindo no presente do passado

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A dor de sofrer



Airton Mendes (/11/2011)



A dor do sofrimento
- Onde dói?
No coração?
No peito?
No que não foi?
No que está feito?
No amor não esquecido?
No dinheiro perdido?
- Onde dói a dor
Do sofrimento sofrido?

- O que é a dor?
É a pessoa que partiu?
É a tua casa que ruiu?
É perder o companheiro querido?
É lavar um membro ferido?
É não ter ninguém a teu lado?
É sentir um osso quebrado?
É a paixão que não tem cura?
É a ferida que não supura?

Onde dói a dor do amor?
E, pior (se assim for)
Onde dói a dor
De quem não sente o amor?


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O sol da cidade



Airton Mendes
07/2011

A cidade está desperta
E, rosto sob a coberta
Aproveitas o último segundo
Do sonho que será esquecido
No instante advindo

É quando terás que enfrentar
O sol a iluminar
O teu rosto rugado
O teu corpo cansado
Os teus pés disfarçados

Disfarce de bailarina
Que o sol, impassível, ilumina
Deixando porém entrever
Para poucos olhos
O retrato do vilão sob a menina

Edifício São Vito





Airton Mendes
09/2011


Finalmente demoliram o velho edifício
Depois de meio século
O estorvo de 27 andares foi ao chão
Liberaram um pedaço de céu
Um facho de sol
Um ponto de vista
Muitos pontos de fuga
Enterraram o feio prédio
E espalharam sua gente feia
A poeira subiu
E com ela as histórias
A poeira dissipou-se
As histórias ainda estão no ar
Talvez até a próxima construção
Talvez para sempre

cidade natural

Airton Mendes
(07/2011)


Está lá, não há como negar
Está lá e é você
Você, rotulado, numerado,
arquivado, identificado...

Você, o numero 13.110.307
Também conhecido como
Airton Gonçalves Mendes
Natural de Santo André

Naturalmente vieste ao mundo nesta cidade
Naturalmente fazes parte dela
Juntamente com tudo
Que a cidade naturalmente tem

É natural da cidade
O barulho, o medo, o odor e o terror
O mendigo, a favela, o dever e o poder
Sua mãe, seu pai, seu tio e o rio

O rio que nascia na rua ao lado
Hoje está entubado,
Sem respirar, sob o asfalto
Da natural avenida

E tudo é natural nesta cidade
Como a morte
Naturalmente morreram seu pai e seu tio
Naturalmente morrerá você
Como naturalmente morreu o rio

Naturalmente também morrerá esta cidade
Um dia...






segunda-feira, 25 de julho de 2011

Lembranças

Airton Mendes (07/2011)

Na cidade
-rotina de olhos baixos
Num poste distraído
encontras comigo

Na cômica cena
Permuto a vergonha
pela beleza natural
do teu riso incontido

De tão bela
assim sorrindo
esqueci o arranhão
a dor, o poste inimigo

Lembro-me do sorriso
e da tua voz
Lembro-me do quarto de hotel
e da noite quente

Mas não me lembro dos teus olhos

Cidade fantasma

Airton Mendes (07/2011)

Da infância, lembro-me de Santa cruz
e do seu lamacento Rio Pardo

Das suas águas frias
Do medo de pular da ponte
Das frutas na porta da vendinha
Do cinema sempre fechado

Na praça, imponente,
o Clube dos Vinte
determinava quem e quantos
ali mandavam

Ainda guardo a velha fotografia
Os irmãos abraçados
a igreja envidraçada
o sorriso clicado

Existiam as garotas, tantas e lindas
(e menino de cidade grande lá fazia sucesso)

Existia o sorvete
Existia o sítio
Existia o cavalo
Existia a funerária

E existia Maria
minha querida avó
minha avó cigana
minha “vó” Maria

Da casinha aconchegante
Das comidas deliciosas
Do sorriso
Do carinho

Maria, nossa cúmplice
escondia nossas artes
Competia com mamãe
Quem era mais mãe?

Nem avó nem mãe
Maria era a cidade
Santa cruz morreu com ela...

cidadão

Airton Mendes (02/2011)

O mundo é do tamanho
Da minha retina

Os sabores são aqueles
Que minha boca provou

As notícias são as que leio
Com os olhos da televisão

Faço o que é permitido
E o que é devido

O mundo é bom
Deus é bom

Mas pago meu dízimo
Ao Diabo

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

espelho

Airton Mendes
(01/2010)

Tem fome de vida
A vida que passa fome?

Que sede de justiça
Tem a garganta que está seca?

Belas frases,
Grandes palavras de ordem,
Motes de intermináveis discussões
Teses, teorias, filosofias

Vocês, nuas,
Diante do espelho
Da realidade,
Que reflexo terão?

domingo, 26 de setembro de 2010

Amigo da vida

Airton Mendes
(09/2010)
Eu, quieto em meu canto
E vem a vida me chamar
Falar-me de novos encantos
Novas pessoas para amar

Eu, em meu canto sossegado
E novamente a vida me aporta
Pede-me para olhar ao lado
(tanta gente a vida não suporta)

Difícil viver a vida
Ao lado de tanta gente morta
Melhor bancar o suicida?
Melhor não abrir a porta?

Ser vivo é da vida ser amigo
Ser amigo é da vida ser parceiro
Ser parceiro é na vida ver sentido
O sentido é a vida por inteiro

domingo, 25 de julho de 2010

Imagens

Airton Mendes (07/2010)

São momentos, lembranças
Imagens que vem e vão
Como se estivesse folheando
Um velho álbum da memória

Eu, criança, ao deitar-me:
- Benção madrinha
- Durma com Deus
A escuridão do quarto era quebrada
Pela pequena lamparina
Flutuando no óleo sobre a água do copo
Aos pés da Virgem Maria

Tempos depois
A lamparina foi trocada
Pela imagem da Virgem
Dentro do que parecia ser
Uma pequena televisão
Madrinha agora simplesmente
Acionava o interruptor
Uma luzinha vermelha
Ao fundo a inscrição:
“Lembrança de Aparecida”

Cresci
A cama ficou pequena
A luzinha vermelha apagou-se
O quarto foi invadido pelo clarão
Da novela assistida na sala

E eu deixei de acreditar nos santos

domingo, 20 de junho de 2010

Da função do pintor

Airton Mendes 06/2010





Certa feita perguntaram-me
- O que é fazer poesia? Ora,
para este eterno poeta amador,
mote melhor não existiria:

Fazer poesia é pintar
A vida com palavras



São por vezes pinturas alegres
Outras românticas, tristes, iradas,
Cômicas, alucinadas...
Algumas francamente ruins,
Boas mesmo para o lixo.

Uma por sobre a outra,
Vai o poeta executando novas pinturas,
Mesmo sabendo que este seu afã
Será em vão
Que por mais pinturas que faça
Jamais encontrará a que procura

Esta é a utópica
Razão e função do poeta-pintor:
Achar a pintura ideal
Para a tela da vida.

Eu, de novo

Airton Mendes 20/06/2010
Depois de período de trevas, choro e ranger de dentes,
Eis-me aqui de novo,
Agora sem medo de Ali Babá e os quarenta ladrões.
Volto para fazer poesia...
Para tentar e tentar e tentar...
Tentar achar luz na escuridão
Tentar secar as lágrimas com alegria
Tentar só mostrar os dentes num sorriso
...
Estou sempre tentando...